Conhecendo um novo eu - parte 2
Inacreditavelmente o telefone da minha casa tocou me oferecendo uma vaga de ajudante numa lanchonete no prédio Marshall Enterprises, me questionei se havia passado mesmo por este prédio, marquei o endereço e fui para a entrevista, não se tratava de uma vaga muito especial ou tão bem remunerada, mas eu aceitei e uma semana depois lá estava eu iniciando minha jornada de trabalho. Eu estava radiante naquele dia, cumprimentando todos com um sorriso largo, emanando boas energias.
Gostaria de saber em qual dos andares aquela senhorinha trabalhava, para que pudesse agradecer pessoalmente, mesmo o setor do RH não tendo mencionado o nome dela, minha intuição era de que ela havia conseguido isso para mim.
Meus turnos eram reduzidos, das 9 às 15 horas, conheci o pessoal que trabalhava lá, mas aparentemente somente Elias, Bruna e Grazy haviam se simpatizado mais comigo, Ísis a gerente me olhava com ares de ‘o que essa garota está fazendo aqui’?, mas mantive meus costumes singulares e na maior parte do tempo livre eu passava em companhia dos meus livros, já me sentia mais leve, por saber que não era mais um peso nas finanças da minha família, por mais que meu salário não fosse lá aquela maravilha, iria ajudar de alguma forma.
Ao termino do meu turno, sai alguns minutos atrasada e como ainda não estava acostumada com o horário dos ônibus, eu receei estar atrasada, e sai às pressas, colocando as coisas dentro da minha mochila ao mesmo tempo em que eu andava em direção da porta giratória.
Definitivamente as proximidades da porta giratória tinha alguma coisa contra minha pessoa, praticamente trombei com uma pessoa que vinha do sentido contrário, somente não fui ao chão porque a pessoa me viu caminhando desastrosamente e antes que eu trombasse me parou segurando em meus ombros. Minhas coisas foram ao chão, e no mesmo momento sem ver a quem, me abaixei para apanhar minhas coisas ao mesmo tempo em que me desculpava.
“Desculpe-me, desculpe...” foi então que antes mesmo de estar completamente agachada no chão, vi um par de sapatos visivelmente caríssimo acompanhado o vinco de uma calça preta, eu senti um nó na garganta e hesitei em olhar para cima e preferi terminar de me agachar, mas era inevitável não olhar para cima, até quando eu pretendia ficar naquela posição? Comecei a subir meu olhar acompanhando o vinco da calça, as pernas eram compridas, pude começar a ver a barra de um terno, a ponta de uma gravata... De repente um rosto diante do meu. Ele se agachou, aparentemente preocupado e me perguntou “Você está bem?”, foi notável a surpresa quando aqueles olhos profundamente azuis me olharam fixamente em seguida deu um meio sorriso de lábios fechados, e levantou uma das sobrancelhas para dirigir sua fala a mim dessa vez “Parece que está situação está se tornando um hábito?”.
Eu não podia acreditar, era o mesmo homem da outra vez, e pelo visto ele também me reconheceu? Ao mesmo tempo em que senti um frio percorrer a minha espinha, e não mais estava conseguindo repetir a palavra desculpas, e sim estava boquiaberta sem nenhuma reação.
Tentei disfarçar, antes de levantar meu olhar fixo em direção ao rosto que fazia parte daquele terno e daquele corpo, e quando eu percebi que aquele par de olhos profundamente azuis estava me encarando, franzi minha testa e minhas sobrancelhas clamando por perdão ou talvez fosse uma expressão de misericórdia, “me desculpe... eu... ahmmm”..., como eu não sabia o que dizer ou fazer, resolvi levantar toda desengonçada, ele permaneceu agachado apanhando meu livro do chão.
“Você está bem?”, ele perguntou ao se levantar e colocar o livro em direção das minhas mãos, “Nietzsche! Uma leitura um tanto interessantes nos dias de hoje...”, eu concordei com a cabeça e peguei o livro, e pude sentir meus lábios se movendo com a intenção de dizer obrigada, mas eu tenho quase certeza que não emiti nenhum som.
“É impressão minha ou essa situação é praticamente um Déjà-vu?” ele disse ao me olhar fixamente, “Você trabalha aqui?”, eu estava olhando ao redor em busca de uma saída de emergência que eu sabia que não existia ali, selei meus lábios já que não estava conseguindo emitir sons e somente balancei a cabeça positivamente, fazendo o possível para não olhar fixamente para aquele rosto perfeito.
“Não me lembro de ter visto você por aqui antes, quer dizer... Faz muito tempo que você trabalha aqui?”, ele parecia curioso e fazia perguntas demais para alguém que foi aconselhada a não dar muitas informações pelo RH, eu somente balancei minha cabeça em negação.
“Se não me falhe a memória, você estava aqui uns dias atrás, neste exato local, numa situação semelhante.... Era você?”, não podia acreditar, tinha sido tão breve e como ele poderia se lembrar de mim? Ao contrário, eu jamais tinha visto tamanha perfeição em um rosto, pele, corte de cabelos e olhos azuis, ele parecia artista de filmes de Hollywood. Eu continuava muda, mas desta vez meus lábios se abriram para falar alguma coisa que eu mesma não sabia o que era e agradeci pela minha voz não ter som.
Ele abaixou um pouco a cabeça para alcançar a altura do meu rosto, com um sorriso nos lábios “Você fala, ou é muda?”, eu engoli o nó que estava na minha garganta e tentei dar som a minha voz, provavelmente sem muito sucesso e sendo capaz de emitir somente um breve “falo” num tom tão baixo que não sei dizer exatamente se foi possível ouvir.
“Quem bom, fica mais fácil se comunicar uma vez que eu ainda não domino a língua de sinais. Não me recordo ter visto você por aqui antes... aliás, que bom poder lhe encontrar novamente, gostaria de uma oportunidade para poder me desculpar adequadamente sobre o ocorrido do outro dia...”, a voz grossa e macia dele soava como a melhor melodia em meus ouvidos e meu subconsciente estava me pregando uma peça, eu não tinha certeza se estava entendendo o que ele estava me dizendo, parecia um tipo de hipnose, eu continuei balançando a cabeça sinalizando um sim e depois um não.
“Esse seu sim ou não com a cabeça quer dizer o que?!” ele perguntou, eu não fazia mínima ideia do que deveria responder, meus lábios se moveram, mas minha expressão deu a entender que e não estava entendendo nada.
“Outro dia, uma mulher passou digamos assim, correndo, por aqui e atropelando tudo o que vinha pela frente e acredito que você era uma delas?”, eu balancei a cabeça e o som da minha voz me enganou dessa vez, em bom tom “sua namorada”...
Ele aparentemente me olhou surpreso “Ela não é exatamente mais minha namorada, senão acredito que ela não teria razão para ter saído furiosa daquele jeito”, eu não sabia o que dizer a não ser pedir desculpas.
“Faz quanto tempo que você está trabalhando por aqui?”, ele perguntou aleatoriamente, eu só pude responder de modo breve “pouco tempo”, ele sorriu maliciosamente antes de continuar a sentença de seus pensamentos, “E em pouco tempo, parece que já tem diversas informações a meu respeito, poderia saber por quê?”, eu fiquei imóvel e surpresa com a constatação dele. Na verdade eu não tinha feito pesquisa nenhuma sobre ele e não sabia direito de quem se tratava, mas era óbvio que se tratava de alguém bem importante, o homem de terno preto que o seguia como se fosse a própria sombra dele, dava a entender que era um segurança particular, e por um instante eu me questionei porque um homem com aquele porte físico necessitaria de um guarda-costas, senti minha boca abrindo diversas vezes e nenhum som saia dela, respirei fundo “eu não sei” foi a única coisa que passou pela minha mente em responder.
“Não sabe o que exatamente?”, me perguntei por que será que ele fazia tantas perguntas e eu não sabia responder nenhuma delas, “ahm?! Qual foi a pergunta?” foi a única coisa que veio na minha mente.
Ele deu um sorriso de lábios fechado antes de continuar a me bombardear com perguntas “Posso saber seu nome?”, a pergunta era simples, e mesmo assim me sentia perdida em qual resposta deveria dar, como assim? É meu nome, não saber o próprio nome é um pouco demais, ou eu estava com receio de que ele soubesse o que será que estava acontecendo comigo? “Luana”.
Ele estendeu a mão para me cumprimentar “Meu nome é Marcel, talvez isso você já saiba, somente não tínhamos sido devidamente apresentado, muito prazer em conhecê-la Luana.”.
Era como seu meus neurônios estivessem em curto circuito, minha respiração parava por longos períodos, eu estava completamente confusa, como ele poderia já saber sobre o que eu talvez soubesse?
Era a segunda vez que via esse homem na minha frente, e por incrível que pareça, praticamente na mesma situação, eu ajoelhada aos pés dele. Estendi minha mão para o cumprimento com certo receio, como minha voz também resolveu me abandonar, somente balancei a cabeça, selando meus lábios e mordendo-os, o toque da mão dele era firme, porém, macio e me causou calafrios, imediatamente tentei puxar minha mão de volta, mas ele a segurava me encarando, “Você teria alguns minutos disponíveis? Eu gostaria de convida-la para beber alguma coisa e assim poderia me desculpar apropriadamente pelo ocorrido do outro dia, tem uma lanchonete logo ali e talvez...”
Eu olhei para a lunch’s com um estranho medo dentro de mim, balancei minha cabeça negativamente ao mesmo tempo em que minha voz resolveu saltar de minha boca sem meu consentimento “eu trabalho lá... não...”
“Você trabalha na lunch’s? Interessante! Então realmente faz bem pouco tempo que você está por aqui, estive lá algumas semanas atrás... Se você não se incomodar poderíamos beber alguma coisa lá...”
A presença dele na minha frente e o longo cumprimento de mãos ao mesmo tempo em que estava me incomodando, não queria largar das mãos dele, ele tinha alguma coisa que me colocava em uma espécie de transe. As pessoas passavam pela porta giratória e uma brisa de ar puro vinha de fora, carregava consigo a fragrância do perfume dele para dentro da minha narina, um frescor natural e amadeirado, ao mesmo tempo em que suave era intenso e penetrante. Senti minhas bochechas corarem ao sentir aquela fragrância e puxei minha mão de volta lentamente e me sentindo embaraçada com aquela situação, somente desejei poder voltar no tempo e prestar mais atenção ao caminhar, “Não precisa... Eu...”
Ele abaixou a cabeça para nivelar seu olhar a meu rosto, ao mesmo tempo em que achava aquilo charmoso era meio intimidante, “Já que você fala, será que você consegue completar a sentença de uma frase?! Ficaria mais fácil de entender e talvez... eu não precise deduzir o que você está tentando dizer e talvez o faze-lo de modo errado, o silêncio deixa brecha para cada um entender como desejar...”
Desviando meu olhar dos profundos olhos azuis que insistiam em focar fixamente em meus olhos, tentei completar uma frase, que não saiu exatamente como eu gostaria “Ahm... Não precisa... Não estou... Eu agradeço, já passou... e eu... preciso ir.”.
Ele esticou o braço para levantar a manga de seu terno impecável e poder olhar o relógio, voltou seu olhar para mim e somente com uma palavra ele conseguia me fazer outra pergunta “atrasada?”, eu assenti. “Bom então não quero lhe atrasar mais, porém, deixo o convite de pé, quem sabe numa próxima oportunidade?”
Ele deu um passo para trás, abrindo caminho para eu passar. Balançando a cabeça positivamente enquanto mexia meus dedos freneticamente, resolvi dar um leve aceno, “ok, eu vou... tchau!”, ele acenou com a cabeça e abriu um sorriso lindo, seus dentes eram extremamente brancos, alinhados e completava os contornos daquele rosto que já era belo, ficarem magnifico, “Tenha um bom dia.”
Passei pela porta giratória, desacreditando de mim mesma. Eu não consegui entender o que se passou, porque fiquei naquele estado de choque, porque não consegui responder perguntas simples, e por mais que eu não soubesse ao certo, eu acho que senti um medo que até então nunca havia sentido antes. Voltei todo o trajeto até minha casa tentando entender o que havia se passado, pouca atenção dediquei a Sr. Gerson, o cobrador do ônibus com quem eu sempre voltava tagarelando alguns assuntos diários.
To be continue...
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