A busca quase impossível - parte 1

  Com a pouca coragem que me restava da conversa de incentivo de Allan, entrei na lan house persuadida a digitar um currículo. Allan era mais um dos amigos de meu irmão Lito, que não se cansava de investir seus encantos para me agradar, mas não era porque era agradável conversar com ele que seria uma boa ideia me render aos seus encantos.


  Sentei-me na frente do computador, com a pouca experiência que eu tinha com a digitação, procurei por alguns modelos de currículos e utilizei o qual eu achei mais atrativo, não tinha a menor ideia de qual seria a melhor modelo, e neste momento minha única preocupação era ter as folhas imprimidas em mãos.


  Passado alguns bons minutos, enfim consegui completar as lacunas do currículo com as poucas informações que eu tinha a fornecer. Enquanto fazia a correção, tive praticamente a certeza que nenhuma das melhores conversas de incentivo seria suficiente para me fazer confiar que aquilo iria surtir algum efeito perante a grande massa de pessoas que também estavam buscando por uma vaga de emprego, mas mesmo assim, imprimi algumas vias.


  Lá estava eu, na grande Avenida Paulista, o centro comercial da minha cidade, local onde as melhores e maiores empresas tinha seus escritórios sediados em um dos milhares prédios, enfim eu entendi a expressão arranha céu, por mais que eu olhasse para cima, alguns prédios pareciam que rasgavam o céu azul, alguns tinham uma entrada tão soberba, que se tornava até constrangedor e audacioso pensar em entrar dentro deles em busca de um emprego. Incrível como a cidade onde nasci somente passava a fazer sentindo a partir do momento em que se propunha a observar com outras perspectivas.


  Já tinha percorrido diversos locais, dos mais simples restaurantes ou cafeterias, até alguns escritórios que aparentemente estavam contratando auxiliares. Alguns foram simpáticos e passavam informações de outras localidades que talvez estivessem precisando de funcionários com as minhas restritas qualificações, outros foram mais diretos negando as vagas e alguns foram sarcásticos ao olhar meu currículo, e como eu havia feito a correção milhões de vezes, sabia que não se tratava de erros de digitação ou gramatica.


  Já era quase quatro horas da tarde, eu já tinha perdido a noção do quanto tinha caminhado naquela avenida, um pequeno lanche de um vendedor de rua havia sido meu almoço, já estava exausta e me restava ainda um currículo em mãos, a minha frente e bem próximo do ponto de ônibus que eu precisaria pegar para voltar para minha casa, um prédio robusto e absolutamente fenomenal, alto e imponente, todo de vidro fumê, e praticamente não se via o topo lá de baixo, daqueles que evitei entrar em toda a minha caminhada naquele dia, pois definitivamente não faziam parte da minha esfera de competência, parei por alguns segundo para apreciar o prédio que estava diante de meus olhos e pensei ‘já perdi meu dia todo andando de lá pra cá, o que poderia ser mais um ‘não’, diante dos vários que já ganhei neste dia’?


  A entrada do prédio era de certa forma assustadora, tinha uma pequena cabine com um porteiro, que controlava a entrada das pessoas, expliquei para quê estava ali e ele me deu um crachá de visitantes após eu assinar meu nome numa lista, respirei fundo olhando mais uma vez para a imensidão daquela entrada, e mergulhei dentro da porta giratória, por um segundo me diverti ali dentro dando mais de uma volta, quando notei que o porteiro me observava, fiquei meio sem jeito, dei um sorriso amarelo e passei porta adentro, e no mesmo instante ouvi passos firmes e agudos de um salto alto vindo em minha direção, uma mulher esguia, alta, muito bem vestida e aparentemente furiosa passou feito um furacão, enquanto eu ainda admirava todo o requinte daquele prédio, o mármore do chão e paredes em tons degrade cinza combinando com o dourado das molduras da porta de entrada e catracas, de repente eu estava conseguindo até sentir o gelado do mármore com minhas mãos, eu não sabia direito o que havia me atingindo, mas eu estava sentada no chão, diante de meus olhos ví minhas coisas esparramadas pelo chão e me coloquei de quatro para começar recolher minhas coisas, quando fui alcançar uma das canetas dei de cara com par de sapatos luxuosos masculinos muito bem lustrados e polidos, eu não tinha o menor conhecimento sobre marcas daquele tipo de sapatos, mas eu tinha certeza que não se tratava de um par de sapatos comum.


  O par de sapatos não se moveu então resolvi olhar para cima e vi um terno azul que parecia ter sido feito sob medida para o corpo de um homem alto e esguio, que com toda a sua elegância se agachou diante de mim para pegar a mesma caneta que tentava alcançar, foi quando pude ver o rosto dele e toda a sua beleza masculina, ele emanava uma força vital, um magnetismo poderoso e vigoroso, por alguns segundos seus olhos profundamente azuis se desviaram para minha direção e por um instante me esqueci de que eu estava de quatro no chão recolhendo minhas tralhas, os poucos segundos que aquele rosto me observou notei como seu rosto parecia ter sido esculpido pelo melhor artista plástico e era de tirar o fôlego com toda a perfeição de sua estrutura óssea, seus cabelos castanhos criavam um contraste perfeito com o contorno e rosados de seus lábios, o tom do azul de seus olhos eram tão intenso e penetrante, que lhe concediam uma beleza única.


  Ele desviou seu olhar por um segundo, entregando-me a caneta, foi possível ouvir que ele murmurou ‘desculpe’ ao mesmo tempo em que olhava em direção da porta giratória, seus olhos acompanhavam o som daquele salto alto.

Em seguida, outro par de sapatos dessa vez feminino estava diante de minhas mãos que continuavam sentindo o gelado do mármore, e pude ouvir ‘ O seu smartphone, o senhor esqueceu..., estava caído... ’ e pude ver ele se levantando, pegado o celular e caminhando em direção da saída.


  Eu ainda estava tentando me situar do que havia acontecido, enquanto da dona do par de sapatos femininos estava terminando de me ajudar a recolher as coisas do chão, ‘tudo bem com você?’ foi a pergunta que me trouxe de volta a realidade, quando eu recapitulei tudo instantaneamente em minha mente, me senti constrangida, o movimento de gente entrando e saindo era até considerável e eu ali, me levantando do chão. Aquela mulher de meia idade se fazia muito prestativa e me entregou o currículo, ‘ em busca de emprego? ‘ ela me questionou, mas eu estava me sentindo a pior espécie da fase da terra e não sabia exatamente por quê, mas me sentia humilhada porque eu me lembrei de que a moça esguia e loura que passou havia me atropelado e eu fui ao chão porque estava distraída com a imensidão e grandeza daquele local. Me senti uma tola, um peixe fora d´água naquele lugar que sinceramente não me pertencia.


  Senti minhas bochechas corando, até tentei me controlar, mas com certa frequência meus olhos me traíam e lágrimas inconsequentes rolavam pelas minhas bochechas, às vezes eu mesma não sabia o por quê, e as considerava um defeito do meu organismo, ou talvez eu não quisesse assumir que era eu uma chorona sem motivos. A mulher então demostrou certa preocupação, me indicou uma mesa próxima para nos sentar e de repente eu estava falando coisas descontroladamente com tanta rapidez que eu mesma não estava conseguindo compreender, ‘Eu só arrisquei entrar aqui porque era o último local, o mais perto do ponto, não sei por que eu não obedeço meus instintos, eu sabia que não devia, foi teimosia, eu sou uma idiota, que acredita nas coisas que as pessoas falam, até eu dou risada desse currículo, eu sabia, tantas outras pessoas e por que raios seria eu, nunca foi e nunca será’.


  A mulher com uma voz serena e calma colocou uma das mãos sobre a minha, ‘ Meu nome é Zilda, espero que você não tenha se machucado e que esteja bem, pelo o que puder notar você veio até aqui em busca de um trabalho? ‘, aquelas palavras soando tão serenamente em meus ouvidos me fez voltar à realidade, expliquei a ela minha situação e notei que ela ficou um pouco sensibilizada, ficou com o meu currículo, mas sem poder me prometer um retorno, pelo menos eu havia me livrado daquela última via imprimida, e por mais que sem resultados cumpri meu objetivo daquele dia, e como muitas outras pessoas estavam batalhando por uma vaga de emprego. Notei a imparcialidade das pessoas e a então diferença de status que separa as classes sociais em meu país, lugar onde o rico sempre será rico e o pobre sempre será ou pelo menos irá precisar de muita sorte, muito estudo e muito esforço para conseguir um lugar ao topo de um daqueles prédios.



To be continue..

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